As eleições municipais deste ano serão excepcionais em razão, primeiramente, do Covid-19 (que ocasionou um evento denominado de “pandemia”) e, em segundo lugar, pelo efeito da legislação eleitoral em vigor que proibiu as coligações proporcionais (quando partidos se coligavam para as eleições proporcionais no município que iriam definir a composição da Câmara Municipal).
A pandemia teve diversos efeitos na eleição municipal deste ano. Ela atrasou o calendário eleitoral (as eleições que deveriam acontecer em setembro serão, agora, em novembro). Ela modificou o cotidiano do cidadão nos municípios, pois as atividades presenciais foram restringidas ao máximo e lugares públicos, como praças, clubes e academias foram fechados para a população. Essas medidas impediram aglomerações nas quais muita coisa é assuntada, entre eles a política da cidade e as eleições que aconteceriam. Ela também gerou um grande terror na população, que foi intensificado pela cobertura feita por grandes órgãos da imprensa. Esse grande medo afetou o interesse da população pela política local e ela ficou meio que desligada das eleições deste ano. Assim, é alto o risco de aumentar muito o índice de abstenção, mais o de votos nulos e em branco.
No caso do fim da coligação proporcional o efeito mais direto foi o aumento de candidaturas para a prefeitura, fenômeno que se tornou geral nos municípios brasileiros. As legendas partidárias têm um claro interesse para lançar um candidato a prefeito para deste modo poderem usar essa candidatura, bem como o espaço que ela terá na propaganda eleitoral, no intuito de alavancar os votos para seus candidatos a vereador. Esse fenômeno, por si só, já alteraria muito a dinâmica das eleições municipais neste ano, mas somado ao efeito da pandemia gerou uma tempestade perfeita em termos de tornar o processo eleitoral mais confuso para o eleitor. Por que? Porque muitos candidatos a prefeito vão gerar mais propaganda para a prefeitura, mais mensagens pedindo votos, mais promessas feitas por vários candidatos e no conjunto isso pode gerar no eleitor uma mensagem confusa do processo eleitoral, criando um efeito de desmobilização (“todo mundo fala a mesma coisa”, “sempre prometem o mesmo”, etc).
Logo, os candidatos a prefeito terão um esforço muito maior que normalmente teriam em outros pleitos para mobilizar o eleitorado, em um calendário que foi modificado e empurrado para o final do ano, quando há um grande aumento no interesse pelas festas de final de ano em razão da propaganda para o Natal, das festa do final de ano e das viagens nas férias. Para piorar, as aglomerações serão bem menores que as das eleições passadas. Isso obrigará os candidatos a investirem muito nas redes sociais, procurando mobilizar o eleitorado nesse meio. Tal ineditismo vai separar os candidatos entre aqueles que souberam usar bem as redes sociais daqueles que fizeram um uso pobre delas. É muito provável que essas eleições sejam as mais limpas da história, afinal, para quê e para quem se vai jogar “santinhos” na rua?
Do lado dos prefeitos que tentarão a reeleição a pandemia os colocou em uma situação ao mesmo tempo boa e difícil. Para os prefeitos que estavam com uma baixa taxa de aprovação antes da pandemia, o efeito causado por ela tirou o olhar da população para a prefeitura e gerou oportunidade para que eles, através de ações de enfrentamento da doença, pudessem recuperar uma melhor avaliação da população. Nesse caso, a pandemia os colocou novamente no jogo, para poderem ganhar a reeleição. Mas, para os prefeitos que estavam com boa avaliação antes da pandemia, o efeito causado pode ter sido ruim, pois a população ficou atemorizada com a doença e deixou de lado a imagem que tinha da prefeitura. Assim, eles tiveram que agir com intensidade e cuidado durante a pandemia. Teve prefeito que agiu com prudência, tomando decisões para o enfrentamento da doença, mas sem fazer muito alarde do que estava fazendo. Quem agiu assim fez o certo. Mas teve prefeito que soltou o verbo durante a pandemia, sempre aparecendo e fazendo todo tipo de anúncio do que estava fazendo e do que iria ainda fazer. Quem agiu assim fez o errado, pois se colocou em posição central no debate de como enfrentar melhor a pandemia e abriu oportunidade para que a oposição pudesse explorar os erros eventuais cometidos por ele.
Nas próximas semanas, com o início da campanha eleitoral, acompanhado do abrandamento das medidas contra o Covid-19, os acertos e erros dos prefeitos que estão tentando se reeleger serão o principal eixo das campanhas. Como foram muitos meses de medidas adotadas contra a pandemia, os efeitos na economia já estão sendo sentidos pela população e eles serão muito explorados nas campanhas. O desemprego aumentou e houve uma queda média na renda do cidadão.
Com muito medo de uma doença ainda pouco conhecida, com menos dinheiro e muito preocupado com a situação do emprego (ou do desemprego): este é o estado de espírito do eleitor nestas extraordinárias eleições municipais de 2020.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP