As eleições municipais de 2020 foram amplamente dominadas pelo temor generalizado ao Covid-19 que favoreceu os prefeitos que tentaram a reeleição, seja porque o eleitorado ficou desmobilizado para as eleições, seja porque ele ficou mais atento a medidas administrativas de curto prazo voltadas para o enfrentamento da doença. Mas, apesar da intensa desmobilização, evidenciada pelo recorde nas taxas de abstenção por todo o país, os resultados geraram um novo cenário político que repercutirá nas eleições (estaduais e presidencial) de 2022.
Um primeiro dado a ser destacado é o esvaziamento dos “grandes partidos” (MDB, PT e PSDB) no tocante ao número de prefeituras conquistadas na eleição de 2020. Em relação a 2016, esses partidos perderam prefeituras para outras legendas, com destaque para aquelas mais identificadas no perfil de centro-direita. A perdas de influência de MDB, PSDB e PT, somada à maior fragmentação partidária, evidenciada pelo maior número de legendas que conquistaram prefeituras, representam um duro golpe para o projeto de uma grande frente eleitoral em 2022 contra a candidatura de Bolsonaro. A razão é que as lideranças desses partidos estavam à frente das articulações da frente e o esvaziamento de seus partidos dificultará bastante a construção dessa frente. Por outro lado, Bolsonaro tem, depois dos resultados da eleição de 2020, um maior número de legendas para negociar o apoio à sua candidatura, ao mesmo tempo que poderá articular seu apoio às candidaturas ao governo dos estados em 2022.
No campo da centro-direita, o enfraquecimento do MDB e PSDB abre espaço para que outras legendas cresçam na política nacional, como o PSD, DEM e PP, pois tiveram uma boa performance na eleição de 2020. Essas legendas têm, agora, mais chances de obterem um bom resultado nas disputas para os governos dos estados, ao mesmo tempo que poderão tentar obter um maior espaço de articulação política no Congresso Nacional. Esses fatores poderão ser utilizados por Bolsonaro para costurar uma base de apoio na segunda metade de seu atual mandato e, também, montar uma frente partidária de apoio à sua reeleição.
No campo da centro-esquerda, o resultado de 2020 foi desastroso para o PT, que perdeu a liderança entre os partidos de esquerda e centro-esquerda. Ficará muito difícil o PT repetir sua estratégia eleitoral das últimas eleições presidenciais, quando um candidato muito popular (Lula) impunha, junto com a popularidade do PT, uma frente eleitoral mais à esquerda. Por outro lado, outros partidos fortes, como PDT e PSB, também encolheram na conquista de prefeituras em 2020 e não conseguiram, assim, aumentar sua influência em relação ao PT. A fragmentação partidária também ocorreu nos partidos mais à esquerda, dificultando a construção de uma frente de esquerda para a eleição presidencial de 2022.
Um outro dado a ser destacado é a ausência de um nome popular que se projetou para a próxima eleição presidencial, deixando Bolsonaro isolado em termos de popularidade. O esvaziamento de nomes, como o do ex-Ministro Sérgio Moro, além da falta de prestígio popular de nomes como o do governador de São Paulo, João Doria, são mais um fator a dificultar a tese da frente unida contra Bolsonaro.
As pesquisas de intenção de voto para 2022 que feitas, neste ano, por alguns institutos como FSB, Paraná e PoderData, reforçam o favoritismo da candidatura de Bolsonaro e a falta de um nome mais popular para enfrentá-lo. No conjunto, as pesquisas desses institutos mostram que Bolsonaro tem uma média de 33% das intenções de voto, seguido por Sérgio Moro com uma média de 12%, Ciro Gomes com 10%, em média e Fernando Haddad 9%, em média. Doria tem apenas 4%. Outros nomes ficam na casa dos 8%. Bolsonaro tem, hoje, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, o mesmo percentual do eleitorado que ele conseguiu no primeiro turno da eleição presidencial de 2018. Ele conseguiu essa boa performance depois de ter enfrentado o desgaste político gerado pela pandemia, além das eleições municipais deste ano. Sem dúvida, o ano de 2020 está terminando muito favorável para o atual presidente.
Entretanto, o cenário eleitoral de 2022 ainda está nebuloso, pois a questão da pandemia não foi totalmente resolvida (o novo “front” político está em torno da vacinação contra o coronavírus), a situação da economia brasileira está instável (há forte pressão inflacionária resultante da retomada vigorosa da atividade econômica, que está, desse jeito, enfrentando um problema de suprimento de matérias primas) e a situação do Congresso Nacional, que teve nos últimos dias a notícia que não poderá contar com a reeleição dos atuais presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. A impossibilidade desses presidentes de disputarem uma reeleição favoreceu muito Bolsonaro, que está construindo uma nova base de apoio no Congresso que lhe seja mais leal. Sem dúvida, os resultados das eleições municipais deste ano foram muito favoráveis para que Bolsonaro tenha sucesso na reconstrução de uma base de apoio com menor poder de interferência dos “grandes partidos” (MDB, PSDB e PT). O DEM ficou isolado e tem, agora, no PSD um partido concorrente. A eleição dos novos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, no início de 2021, ajudará a tornar mais visível o cenário de 2022.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP