No dia 20 de janeiro de 2021 Joe Biden tomou posse da presidência dos Estados Unidos da América com a capital ocupada por vinte e cinco mil soldados, bandeiras fincadas no solo para representar as pessoas ausentes no evento, sem a presença do Donald Trump, banido das principais redes sociais e com o segundo processo de impeachment aberto pela Casa dos Representantes (o segundo, em dois anos). O cenário de início de governo não poderia ser mais desafiador, principalmente por causa da evidente divisão do país, não mais entre Democratas e Republicanos, mas entre boa parte dos dois partidos e o eleitorado que se mobilizou para votar em Donald Trump.
O grande temor de Democratas e de muitos Republicanos é a capacidade de Trump continuar sendo a principal voz para os milhões de americanos que, desde 2016, o elegeram seu representante. Esse temor se expressa na tentativa de calar Trump nas redes socais, ação articulada pelas empresas gigantes na comunicação das redes sociais (chamadas de “Big Techs”) e, também, pela tentativa de cassá-lo da política com a abertura do segundo processo de impeachment. Está mais que evidente o objetivo de suprimir Trump da política americana.
Mas algumas questões se apresentam a esse mega esforço articulado para calar e banir Trump.
Em primeiro lugar, os milhares de canais e grupos que se mobilizam em torno de Trump continuam a agir com muita desenvoltura na internet, e as grandes empresas que o baniram estão perdendo milhões de usuários e bilhões em valor de mercado. Porque Trump agitava a internet com suas publicações, com milhões respondendo a favor ou contra suas publicações. Para onde for Trump, ele levará a atenção de boa parte do tráfico de comunicações que fazem a economia das redes socais. Trump não está calado, nem sua rede de apoiadores.
Em segundo lugar, para que ocorra o impeachment de Trump são necessários dois terços de senadores para sua condenação, e como há uma divisão no Senado entre Democratas e Republicanos, para que a condenação ocorra será preciso que metade dos senadores republicanos votem junto com a totalidade dos senadores democratas. Algo, no momento, improvável.
Em terceiro lugar, não será positivo que logo no início do governo Biden haja a condenação por impeachment do ex-presidente. Isso vai manter muito aquecida a política nos EUA, e é tudo que Biden tem que evitar, ainda mais que ele prometeu “unir o país”.
O fato é que Trump, mesmo perdendo a eleição de 2020, conseguiu setenta e cinco milhões de votos, sendo que 90% votaram nele por sua causa. Biden, por sua vez, teve 56% de seus eleitores que votaram por sua causa, e 29% por causa de Trump. Imaginar que sem Trump essa parcela do eleitorado americano voltará ao leito do rio e se acomodará no velho jogo bipartidário é uma aposta muito arriscada, pois a mobilização continuará, mesmo com o banimento de Trump promovida pelas Big Techs.
A grande questão, portanto, é o que fará Trump nas próximas semanas. Ele poderá aceitar a derrota e se aposentar da política, como sonham Democratas e Republicanos, ou poderá ser cassado nos seus direitos políticos, mas continuar ativo na política (provavelmente fundando um novo partido), ou ele poderá ser absolvido novamente pelo Senado no processo de impeachment e continuar no partido Republicano, persistindo como um ativo membro do partido que tentará de tudo para novamente disputar a eleição em 2024. Esses três cenários políticos são os mais visíveis no momento. A permanência de Trump no partido Republicano será consequência do comportamento da bancada Republicana do Senado.
Por outro lado, é muito provável que Trump invista na criação de uma plataforma mais livre na internet, para que ele não fique à mercê das Big Techs. Ele poderá apoiar empresas que já têm seus próprios canais, ou criar um próprio. E, provavelmente, ele investirá também nas mídias tradicionais, pois quem tem a capacidade de mobilizar milhões de pessoas têm presença garantida nos meios de comunicação, seja por convite, seja por um empreendimento próprio. E esse ponto será crucial para a liberdade de expressão nos EUA, pois a única forma de calar ou de impedir Trump será por meio de censuras, prisões e banimentos.
Imaginar um país como os EUA voltando aos tempos do Macarthismo para perseguir e cassar o pensamento conservador é algo difícil de aceitar e por causa disso o cenário mais provável é que Trump continuará a se expressar junto aos milhões de americanos que votaram nele. Essa possibilidade assombra o mundo político, as Big Techs e os grande órgãos de imprensa do país. Logo, os quatro anos de um presidente envelhecido e politicamente frágil (Joe Biden) deverão ser muito tumultuados. Até porque Biden não tem o partido Democrata unido em torno de sua frágil liderança.
E sim, claro, está todo mundo vendo isso (China, Rússia, países do Oriente Médio, Europa e Américas).
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP