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Menos futuro do que passado

Valdete Braga

Uma amiga disse uma frase que impactou-me e fez pensar. Após a partida de uma pessoa por ela muito querida, ela falou: “estamos em uma idade em que precisamos aprender a lidar com perdas”.

Grande verdade, esta, mas a veracidade incontestável da morte é talvez a mais difícil de se aceitar, nossa única certeza e ainda assim a mais difícil.

Um dia percebemos que já partiram familiares, amigos, colegas, alguns tão próximos que a proximidade continua, por mais ou menos tempo, dependendo do nível desta intimidade.

Lembrei-me de uma fala da atriz Cissa Guimarães, quando perguntada sobre a dor de perder um filho. Ela respondeu que não o perdeu, falando literalmente “eu não o perdi, eu só ganhei com ele. Ganhei dezoito anos da presença dele aqui na Terra”.

Poucos têm a benção deste entendimento, mas Cissa está corretíssima, o tempo que passamos com aqueles que amamos e que eles passam conosco são conquistas que jamais perderemos. Não temos ainda ascensão para entendermos isso, e só aprenderemos a lidar com esta dor se um dia alcançarmos este nível de evolução.

A dor da perda independe de idade, mas, à medida que amadurecemos, passamos a entender que, mesmo que ainda não tenhamos aprendido, precisamos nos esforçar para isto.

É tudo tão rápido! Estamos brincando com os colegas na rua (sim, faço parte de uma geração abençoada que não possuía celular, não brincava com jogos on line e tinha segurança para pular corda com amiguinhos no terreiro de casa, ou, em alguns casos, até na rua, sem movimentos de automóveis), depois estamos no colégio, universidade ou mercado de trabalho, tudo isto num piscar de olhos. Em outro piscar de olhos, percebemos que temos menos futuro do que passado e a finitude da vida se torna insuportavelmente presente.

Em meio a tudo isto, chega a notícia da partida de alguém, amigo ou conhecido, e nunca estamos prontos para recebê-la. Somos egoístas, não queremos ver a pessoa sofrer, mas também não queremos perdê-la. Não temos o nível de evolução de Cissa Guimarães, e enxergamos a partida como perda. Quem dera todos nós conseguíssemos pensar assim, mas enquanto não conseguimos, vamos seguindo dentro do que podemos.

Fé é o melhor remédio, independentemente da religião processada. Saber que a pessoa continua no outro Plano é um bálsamo e recorremos às orações por ela e por nós, para que ela siga com tranquilidade e aceitação e para que nós façamos o mesmo do lado de cá.

Um familiar, um amigo, um vizinho…  passaremos pela dor por eles, e quando chegar a nossa hora, eles passarão por nós. O segredo é, enquanto esta hora não chega, darmos o nosso melhor, por todos e por cada um.

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