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Ponto de Vista do Batista
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Preconceito no vocabulário

Nylton Gomes Batista

Virou moda, desde há algum tempo, dar outro nome a coisas que, no reino dos preconceitos, muito incomodam. É um despiste, uma forma de encobrir a incapacidade, ou, ainda pior, disfarçar a falta de vontade para combater ou dar solução ao problema. Assim é que, entre outros casos, pobre virou “carente”, velho é “idoso” e favela, “comunidade”, caso curioso e ridículo, pois se trata de desvio de conceito.

O Aurélio e o Priberam, como primeira acepção para o vocábulo “comunidade”, dizem: “Conjunto de pessoas que habitam o mesmo lugar, que pertencem ao mesmo grupo social, estando sob o mesmo governo, e compartilhando a mesma cultura e história”. Não importa o local ocupado pelo grupo: rua, bairro, vila, cidade, condomínio popular, condomínio de luxo.  Comunidade pode ser também grupo de pessoas que ensinam, que estudam e outros profissionais, que garantem o funcionamento de uma escola; pode também ser grupo de trabalhadores numa fábrica e por aí vai. É bem verdade que, como segunda acepção, os mesmos dicionários registram: “Local onde esse conjunto de pessoas vivem: viviam na mesma comunidade”. Os dicionários ainda registram que comunidade é sinônimo de favela. Ah! É? Então, se toda a população de uma favela se transferir para conjunto residencial condizente com a dignidade humana, o antigo local (a favela), devidamente preservado como tal, continua a ser uma comunidade? Aí está o ridículo, resultado do estúpido preconceito contra a palavra “favela” que, originalmente, é nome de uma planta. Mudança das condições de moradia, sim, sem falar na melhoria das condições de vida das populações interiorana, de onde sai grande parte dos que vão morar em favelas.

 Sabe-se que, ao longo do tempo, palavras podem, de forma natural e espontânea, ter seu significado alterado, mas creio ser esta a primeira vez que se força a barra, para a troca do significado de uma palavra específica. Confesso não conhecer outro caso. “Profeta”, palavra hoje empregada para rotular pessoa, que se diz capaz de prever o futuro, na antiguidade tinha outro significado: “portador da luz do conhecimento”; e aqui cabe lembrar uma curiosidade, já citada em outras oportunidades. Em Ouro Preto, antes da eletricidade, quando a iluminação pública era feita com lampiões, havia uma equipe encarregada de acender os lampiões, ao início da noite, e apagá-los ao amanhecer. Em alusão aos antigos “portadores da luz do conhecimento” a equipe era denominada “Os Profetas”. Parece-me que o último diretor desse serviço foi Carlos Gabriel de Andrade, Barão de Saramenha, bisavô de seu homônimo, falecido nos 70 ou 80, não estou bem certo.

Gostaria de saber se alguém desprovido de muito dinheiro se sente mais afortunado rotulado de carente, ao invés de pobre.  Se sentir melhor é porque lhe falta um parafuso! Pobreza é relativa e muito depende do estado de espírito! Há cerca de oitenta anos, em comparação com a situação atual, nossa família era muito pobre. Entretanto, não nos sentíamos assim, pois não nos faltava o essencial. Para nós, pobre era pessoa que dependia da caridade alheia, era a pessoa que batia à nossa porta e pedia “uma esmola pelo amor de Deus”! E a mamãe nos ensinava que, havendo, não se devia negar comida. Na atualidade, sente-se pobre a pessoa que não tem, na garagem, o carro do ano; assim se sentindo também, quem não tem o celular de última geração; o mesmo acontecendo com o jovem que não calça o tênis da moda. Talvez sejam estes que preferem ser “carentes”.

Velhice é tempo acumulado, e, ser velho, tanto para coisa, quanto para ser vivente, é ter tempo de vida acumulado. Ser velho ou estar velho não significa estar alquebrado, caindo aos pedaços ou estar de beiço caído; mas, a palavra “velho” foi estigmatizada e substituída por “idoso”. Mudou alguma coisa na vida dos velhos ou idosos? Nada! O que aconteceu foi isso: a hipocrisia transferiu o antigo preconceito, da pessoa de avançada para a palavra “velho” e depois a substituiu por “idoso”, e, o preconceito aí continua enrustido! coisas também do “jeitinho brasileiro”!

 Agora inventaram outra: pessoas mais velhinhas passaram a ser referidas como “sinhorzinho” e “senhorinha”. Por que isso, caras-pálidas? Tais pessoas diminuíram em tamanho? Perderam importância como gente? Por que não “senhor” e “senhora” como quando ainda mais jovens? Se não “senhor” e “senhora”, “velhinho” e “velhinha” são termos muito mais simpáticos que essa estultice, talvez criada por algum infeliz zé-mané titulado!

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